→ 16 Apr 11 at 4 pm
A ditadura do bem estar Nos dias atuais quando a informação chega mais rápido do que a própria capacidade intelectual de assimilação, principalmente, a maioria das pessoas, a parcela da sociedade que é condicionada a não pensar muito. Percebe-se com um mínimo de observação da nossa sociedade, que o numero de conceitos falaciosos cresce exponencialmente, como em uma metástase da ignorância generalizada, disfarçada, claro, de informação. A “imbecilidade” e alienação chegam cada vez mais próximas do absurdo - chegando ao ponto de beirar o subumano - especialmente no ocidente, para nós, especificamente, o Brasil, terra dos papagaios. A arrogância do imbecilizado é tamanha que impossibilita qualquer diálogo racional, fato este que me faz lembrar a irônica obra de Arthur Schopenhauer - como vencer um debate sem ter razão- obra esta, ironicamente escrita para explicitar como um idiota pode estar errado e, mesmo assim, ainda vencer o debate ou sair com a “razão”. Já afirmava a frase de Goebbels - ministro das comunicações de Adolf Hitler- que: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade autenticada”. Eu não posso negar, ou ignorar o fato, de haver uma ampla sabedoria maquiavélica nesta frase, muito eficaz, aliás. Mas hoje a grande falácia que quero atacar aqui, se trata da - ditadura do “bem estar” - uma mórbida imposição, carregada de inúmeras falácias, retiradas das mais variadas vertentes sociais e antropológicas, que utiliza como base, as principais linhas de conhecimento e propagam a mentira através de intepretações erradas, incoerentes e apedêuticas da filosofia, religião e ciência, tudo orquestrado por uma boa propaganda marqueteira e egoísta, capaz de incorpora o espirito alquimista da idade média, obrigando-nos a buscar a “pedra filosofal” da felicidade plena a qualquer custo. Este fenômeno está diretamente ligado à história do pensamento humano, uma vez que sempre se conspirou para burlar a natureza humana – desde os primeiros indícios de civilização que temos conhecimento, como por exemplo, os sumérios que já se utilizavam de ferramenta de manipulação a imposição valores, muitas vezes inalcançáveis, para o homem comum, este que vivia e que vivem naturalmente, atados aos seus medos e anseios, alegrias e tristezas. Nos dias atuais a imposição do bem estar, empurrada goela a baixo, através as mídias de massa é tão grande, mas tão grande, que reclamar da vida tornou-se sinônimo de diagnósticos imediatos de psicopatologia grave, fato que dito assim, pode soar como um absurdo aos olhos do leitor, mas que na vida real, não passa despercebido a quem ainda possui um mínimo de capacidade de fazer uma observação crítica e concisa da realidade a sua volta. A alienação social a respeito do “bem estar” resultou em uma busca psicótica, por algo inexistente - ou relativamente existente - que automatiza as pessoas de maneira a poderem ser comparadas a exterminadores, exterminadores sociais, que, aliás, estão programados para eliminar qualquer tipo de vertente que vá contra ou ataque a sua “religião” pessoal de ter de se sentir bem vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Uma pessoa em sã consciência sabe que a vida humana, ou o bem estar humano, - não é linear - qualquer vida, em qualquer lugar do mundo, enfrenta adversidades, estas que vão lapidando capacidade e maneira individual de perceber o mundo. A confusão que se faz a respeito de “bem estar” tornou-se algo desesperador, pois nem tudo que propicia o bem estar, efetivamente é benéfico a uma pessoa. O pragmatismo social arraigado na sociedade moderna, à busca pelo gozo eterno, contribui, efetivamente, para que uma pessoa acredite que está se sentindo bem, em uma totalidade, uma plenitude, fato que, claro, é uma grande mentira, pois os bons momentos são fragmentados, não contínuos - assim como um momento ruim não o é. Por mais facilidades que uma pessoa tenha de satisfazer suas vontades, jamais terá uma linearidade, tanto para o mal estar quanto para o bem estar. Em contra ponto a isso podemos dizer que os verdadeiros prazeres humanos são os prazeres (natos), ou seja, aqueles que são naturais - inerentes a o ser - e que se encontram no - bem estar biológico - que existem, obviamente, pela nossa própria constituição animal, que nos propicia satisfações primárias, básicas, como: comer, dormir e praticar sexo, além é claro apreciar a estética. Mas como se não bastasse os prazeres primordiais e como não somos animais comuns, uma vez que somos aqueles animais que raciocinam, detentores da sapiência - fato este que nos difere, ou ao menos deveria nos diferir dos outros animais - necessitamos de linhas extras de “bem estar”, ligadas a abstração e a nossa capacidade de discernir. Estas áreas específicas que nos propiciam o bem estar natural, ligados a nossa complexidade, se manifestam nos departamentos: da empatia, afeição e conhecimento. Há de se concordar que essas três determinações, que no caso, seriam mais que suficientes para manter uma pessoa em um bem estar saudável, juntamente com as outras primordiais e primárias antes descritas. Logo, tudo mais, isto é, tudo que ultrapassa as nossas reais necessidades, poderíamos classificar de valores antropológicos, ou seja, “valores postiços,” inseridos na sociedade por meio da cultura imposta ou adquirida, como por exemplo, as drogas, o consumismo, tecnologia, estética-padrão, ideologias e o poder através do dinheiro, entre outras. Quando tentamos fazer uma analise racional, destes, que classifiquei como: “valores postiços”, que hoje em dia sobrepujam, quando não, distorcem totalmente ou mesmo invertem os valores das reais das - verdadeiras áreas do bem estar - podemos notar que na sociedade moderna, existem poderosas ferramentas de (psicologia de massa), como por exemplo: o marketing, que através do capitalismo selvagem e do socialismo alienante, tornou-se um fator protuberante, causador da inversão de valores na psique humana, podemos observar que a capacidade de persuasão marqueteira possui a assustadora astúcia de transformar o objeto em sujeito e o sujeito em objeto, alienando a capacidade critica das pessoas a tal ponto, que é capaz de fazê-la se submeter-se a “vontade” da matéria inanimada - com “valores” agregados - estas que passam a manipula-las através do fenômeno de (conformidade) que é a vontade de fazer parte de um grupo “privilegiado” da sociedade. Sabemos que os fundamentos de organizações, como por exemplo, o fascismo, nazismo e socialismo, utilizaram-se do mesmo principio marqueteiro, para dominar e manipular a vontade das pessoas, alienando sua individualidade e as capacitando para defender sua causa até mesmo com a sua própria vida, o que também já aconteceu e acontece na religião, quando se busca a defesa da verdade absoluta da salvação eterna e de um Deus antropomórfico. Fazendo uma tosca analogia, podemos comparar o fascismo, por exemplo, à anorexia, que é - a defesa da causa estética extrema - que acaba por ultrapassar a sanidade e senso estético da pessoa, de maneira patológica, obrigando-a a defender seu ideal corporal, e uma realidade distorcida, com a sua própria vida. Não estou escrevendo este texto com o intuito de defender a pessoa que reclama de sua vida compulsoriamente, de maneira patológica, mas sim para mostrar que reclamar de uma condição “ruim” na sua vida, ou um período “ruim”, uma fase “ruim” é algo absolutamente natural, tão natural quanto o relato de se estar bem. Ao contrário do que se pensa, o descontentamento é o fato que move o mundo, não o que atrasa; quando estou descontente com algo e manifesto isso para o mundo - estou inconscientemente dizendo a mim mesmo que preciso mudar - pois quem está sempre contente em sua condição, está parado, estagnado, por melhor que a pessoa se sinta. O descontentamento faz parte da lógica evolutiva, age como mola propulsora para o aprimoramento, tanto do individual como do coletivo, a tecnologia, por exemplo, só é possível por conta do descontentamento humano, que desenvolve ferramentas complexas, que ser torna a maneira postiça e prática de satisfazer sua insatisfação como uma extensão de nossas vontades. Algumas pessoas, em especial aqui no Brasil, possuem uma reação alérgico-epidérmica as opiniões alheias, consequentemente às mudanças, ignoram o fato de que quando uma pessoa reclama da vida, do governo, da sociedade, ela está buscando o novo. É de se espantar que ao buscar a melhoria, possamos ferir diretamente o ego de algumas pessoas – principalmente as de quem se encontram estagnadas, ou em uma situação de zona de conforto e, claro, esta tende a se sentir desprotegida, ameaçada, questionada e é forçada a atacar o “reclamante” e propositor do descontentamento de maneira sistemática, pois o repreender lhes dará a segurança de que sua - verdade está esta garantida, segura - ou que a sua ideia de busca da felicidade é plena permanecerá intacta, mesmo sabendo, inconscientemente que não está. Submeter o reclamante, lhes da uma ideia de poder, de que elas podem impor sua realidade, como uma possível plenitude “conquistada”, um tesouro que precisa ser protegido, qualquer custo. A imposição da imbecilidade do comodismo é algo que se pode conviver, com muito esforço, claro, mas às vezes a pressão é grande, à vontade da massa é esmagadora, agem como verdadeiros “zumbis” da sociedade. Colocam-te em posição desprivilegiada, tentando a qualquer custo extermina-lo, exterminar suas ideias ou mesmo te pressionar para as margens da sociedade, de forma que não ofereça um perigo real à ostensiva ditadura-do-bem-estar. Invertem completamente os valores sociais mais lógicos e éticos, implantam a imbecilidade em nome do “sentir-se bem” a qualquer custo. Mas claro, que como dito antes, se você analisar bem, a semântica da palavra (descontentamento), perceberá que é justamente o oposto, o descontentamento, não é sinônimo de imposição, significa questionar o inquestionável, ter a possibilidade de não sentir-se bem e poder expressar isso sem ser sumariamente diagnosticado e censurado, assim como também o de sentir-se bem e poder expressar a sua alegria para o mundo. Sentir-se bem não é uma busca, é uma fatalidade, assim como se sentir mal o é. Já o conceito de - contentamento travestido de gratidão - que é padronizado e impositivo, pode ser visto como uma porta aberta para o vício dos anagramas patológicos, ditatoriais, estes que assolam a humanidade, com a perversidade dos - individualistas “coletivistas” - que buscam manipula, lucrar e beneficiar-se da boa vontade das pessoas, que por sua vez, são induzidas a aceitar tudo com passividade e apatia, quase sempre, não tendo os meios de perceber os tipos de realidades psicóticas as quais se encontram submersas. Neste ponto ocorre-me lembrar da tese da (sombra) do ego, de Carl Gustav Jung, que se refere aos arquétipos e atavismos da parte mais sombria do nosso ego, por assim dizer, trata-se a parte mais animalesca da personalidade humana, herdada dos nos ancestrais mais primitivos e, proveniente dos nossos medos e repressões mais profundos que habitam o nosso subconsciente. Segundo Jung (superficialmente, pois não vou me aprofundar) a sombra pode ser perigosa, principalmente quando não reconhecida, isto é, quando o seu dono não tem conhecimento da mesma. Quando isso ocorre, a tendência é acontecer uma repressão da sombra, o individuo, geralmente, tenta projetar suas “qualidades” indesejáveis em outras pessoas e assim, deixa-se dominar pela sombra e, sem perceber, acaba por tornar-se uma pessoa amargurada. Quanto mais o conteúdo da sombra torna-se consciente, menos chance a pessoa tem de ser dominada; e quanto mais se reprime a sombra mais inconsciente ela fica, tornando - te um alvo fácil para que você seja dominado, literalmente, por si próprio, mas um “si próprio” perverso. Uma pessoa sem sombra em tese, não é um individuo completo, mas uma caricatura bidimensional que se rejeita a mescla do mal e a bivalência presente em todas as pessoas. Sendo assim, fazendo uma analogia a esta breve síntese de Jung - para com a questão do bem estar - quando uma pessoa nega o lado ruim de sua vida, quando ela abafa suas tendências naturais de manifestação humana, ela esta negando a sua própria natureza de se sentir mal, de se descontentar com as coisas e buscar um aprimoramento maior de sua vida. Quanto mais uma pessoa se afirmar plena e feliz, mais conflito terá ou mais se alienará - pois automaticamente estará projetando e perseguindo uma imagem inalcançável - assim como quem deseja ser o infeliz dos infelizes, o que é uma utopia inversamente proporcional à felicidade. Quanto uma pessoa mais negar seu lado descontente, mais remoerá a frustração, quanto mais atacar quem se descontenta, mais - expectativas falsas projetará nas outras pessoas, tentando morbidamente adapta-las a uma realidade utópica e irracional, que muita das vezes, nem mesmo a própria pessoa que venha ser a autora das criticas ao descontentamento alheio, sabe a origem de tais conceitos que a afeta, não é capaz de identificar os - porquês - de irritar-se com o descontentamento alheio. A frustração e o descontentamento são faces naturais humanas, não tente negar os fatos, ou se tornará um psicótico “feliz”, pregando uma ditadura às outras pessoas, fato este, que é profundamente lamentável de se ver. A vida - ao menos aqui na terra, não sei depois - nunca será plena, o bem estar, nunca será pleno aqui, assim como o mal estar também não é, e não será. Dizem que; “se conselho fosse bom não se dava, vendia”. Mas mesmo assim, faço aqui a minha recomendação: retire do seu vocabulário a palavra - plenitude - se ainda preza pela sua saúde mental. Há um dito popular que gosto bastante e que cabe perfeitamente a esta questão: “Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe.”

