Ética, moral e divagações.
Para comparar o homem de hoje como - possibilidade perfeita do futuro - seria necessário conhecer, literalmente, o homem perfeito do futuro, para haver base de comparação temporal, pois sem esta base fica impossível saber qual é a medida do perfeito. O mesmo vale para os estados, pois cada nação é um conglomerado cultural distinto e que em nenhuma circunstância pode ser comparado à outra em termos de progresso e atraso, pois para se comparar, por exemplo, o país ‘A’ do passado com o ‘B’ do futuro, o país ‘A’ teria que ser, literalmente, o país ‘B’, o que é impossível, pois o a linha temporal futura ainda não existe, e mesmo se existisse, ainda assim não se poderia compra-los, pois seriam distintos. Comparações podem acontecer apenas nos campos da técnica, nunca no campo cultural. E mesmo assim se compararia não em termos de progresso e atraso, mas sim em termos de possuir tal técnica ou não. Afinal a técnica não é progresso, mas apenas uma mudança de perspectiva.
É fato que todas as utopias partilham de uma característica primordial, que é lidar com linhas temporais imaginativas apocalípticas. Linhas temporais estas que, sempre estarão limitadas ao horizonte de consciência do propositor. Nenhum revolucionário é capaz de saber qual será o fim da história, logo, não pode prever o que seria um estado ideal e muito menos o homem ideal, pois a base de comparação não existe no plano físico, apenas hipoteticamente de forma limitada.
Ao que entendo sobre moral, trata-se basicamente da capacidade interna e objetiva do ser perceber o outro, e, que não pode comportar ou abranger a um grande grupo da mesma forma que no individual, pois se trata de um paradigma pessoal e natural e egoico de visão do mundo. Já a construção da moral adquirida pela ética grupal é baseada em certa coerência cultural, de vivência e de tradição de censo comum e imaginativa, restringindo assim a manifestação pura do ego, esta que pode ser nociva para o outro, como acontece em um animal.
Assim, definimos a percepção natural e a cultural como sendo razões superpostas e distintas. Embora seja impossível se distinguir o que é percepção natural e o que é percepção cultural, torna-se perfeitamente possível moldar a moral estimulando a imaginação através da literatura, das lendas e da história e até da propaganda.
Segundo alguns autores como David Hume, a moral nada mais é que um processo instintual, não racional, o que em partes, a meu ver, está certo, embora não totalmente.
Para mim, existe sim inteligibilidade na moral, que são os padrões de censo comum. No entanto a moral, não se sustenta em si mesma por ser muito restrita. São necessários então, padrões de comportamento éticos normativos, como a moral dos religiosos, por exemplo, para que não haja uma dissociação perceptiva em escala individual se dilua em barbárie. A ética tem papel organizador importantíssimo e se encontra incita na moral, justamente pela moral possuir inteligibilidade individual de percepção. Em resumo, a moral não pode existir sem a ética, mas ética pode, sim, existir sem a moral. Grandes exemplos espúrios são as éticas praticadas entre bandidos e corruptos, contrarias a ética vigente. Uma ética normativa esquemática ideológica, por exemplo, pode influir diretamente na percepção moral, causando erros terríveis de julgamento de valores, que é o que acontece no Brasil de hoje por conta do gramscismo. Isto significa que dentro de um mesmo universo, uma mesma realidade é possível que coexistam dois tipos de justiça, a justiça social e ajustiça criminosa. Por este motivo se vê tanto deblaterar em nome da ética, por parte dos revolucionários, pois a ética pode ser moldada como conduta imposta dentro de uma linha temporal, alterando a percepção de julgamento mais básica. Já a moral não, por ser restrita é renegada pelos subversivos, pois está ligada a tradição e valor individual, este que não se muda com decretos normativos com tanta facilidade. E isso claro, não faz parte dos planos de nenhum movimento revolucionário marxista, por exemplo, este queque visa destruir a tradição para moldar a moral através de decretos normativos.
Neste ponto, não se pode desconsiderar alguns fatores, estes que são primordiais no que diz respeito ao que se entende por moral. O principal é que, se a moral não pode existir sem ética, como foi dito anteriormente, e quanto mais se aperfeiçoar a ética, mais se solidificará uma moral com mais inteligibilidade e características universais. Penso que a ética baseada na moral já adquirida e lapidada é o caminho para uma ética universal futura mais avançada, ou mais ou menos uniforme e coerente. Já uma ética sem moral pode assumir qualquer face, mesmo a mais perversa.
Neste ponto citarei o filosofo Olavo de carvalho, para tentar explicar que eu não sofro de paralaxe cognitiva, e não estou viajando na maionese.
Como é de nosso conhecimento, Olavo o define a paralaxe cognitiva como - “afastamento entre o eixo da construção teórica e o eixo da experiência real anunciado pelo indivíduo” – logo, meu discurso à cerca da ética, não se fasta do eixo da experiência real, pois jamais afirmo que a ética “sempre será melhorada” e nunca piorada.
A ética pode sim piorar, quando existe interferência ideológica subversiva contaminada por uma visão distorcida da realidade, isto é, pela paralaxe cognitiva. A solução para este problema pode estar na individuação da ética, isto é, um código pessoal ético universal baseado na moral, similar ao imperativo categórico de Kant. Se cada indivíduo for estimulado culturalmente a desenvolver um código pessoal de ética baseado na moral já adquirida, dai sim, poderíamos ter campo para trabalhar para o aperfeiçoamento de uma ética universal que renove a moral tradicional, mantendo o que é bom e descartando o que é ruim. Só que isso implicaria na aniquilação ou mudança grande no campo da religião, o que torna a ideia dogmática e subversiva se imposta. Mas caso corresse, teria de ser um processo natural e moral, para não se tornar patológico. Claro que isso é apenas uma especulação, pois não existe como saber o aconteceria, e propor como modelo torna-se uma experiência social revolucionaria, esquemática e subversiva.
Analisando dessa forma, pode-se sim especular sobre hipóteses futuras, sem jamais se descambar para uma visão de paralaxe, pois a construção teórica da ética seria baseada em princípios morais pessoais e na realidade prática, calcada em fatos concretos, visando um processo natural de transformação e aperfeiçoamento infinito, claro com a possibilidade de retrocesso. Logo se vê que, fazer prospecções não é o mesmo que idealizar, é necessário ter uma imaginação muito bem trabalhada para não cair no fundo do poço das utopias.
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